
Não sei, não sabe ninguém
porque canto fado, neste tom magoado de dor e de pranto . . .
e neste momento,
todo sofrimento
eu sinto que a alma cá dentro se acalma nos versos que canto
foi deus, que deu luz aos olhos
perfumou as rosas,
deu ouro ao sol e prata ao luar
ai, foi deus que me pôs no peito
um rosário de penas que vou desfiando e choro a cantar
e pôs as estrelas no céu
fez o espaço sem fim
deu luto as andorinhas ai . . .
e deu-me esta voz a mim.
Se canto,
não sei porque canto
misto de ternura, saudade, ventura e talvez de amor mas sei
que cantando
sinto o mesmo quando,
me vem um desgosto e o pranto no rosto nos deixa melhor
foi deus,
que deu voz ao vento
luz no firmamento e pôs o azul nas ondas do mar
ai foi deus, que me pôs no peito
um rosário de penas que vou desfiando e choro a cantar
fez o poeta o rouxinol
pôs no campo o alecrim
deu flores à primavera ai e deu-me esta voz a mim
(Amália Rodrigues)